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Princípios básicos da Homeopatia para o criador de cavalos

Naturalmente o leitor mais imediatista gostaria de encontrar somente dicas práticas, truques, receitas e tais num artigo sobre Homeopatia aplicada aos cavalos. Mas seria o mesmo que Nelson Piquet tentar ensinar a pilotar em Fórmula 1 através de um artigo na internet. Ou, para ficarmos em casa, o treinador de cavalos de salto ensinar sua arte escrevendo a alguém que nunca sequer caiu de uma sela (ou "sartou de prancha", como dizia meu avô quando eu, garoto, chegava em casa machucado porque caí do cavalo).

Medicina homeopática requer conhecimento de fisiologia, patologia, anatomia, clínica e, somente após aprender essas disciplinas, de Homeopatia em teoria e prática. Por isso, apenas uma pincelada será dada aqui.

A Homeopatia já era antevista por Hipócrates (c. 400 A.C.). Este dizia que os medicamentos poderiam curar por um dos dois princípios: dos contrários ou dos semelhantes.

C. F. Samuel Hahnemann, médico alemão, em fins do Século XVIII, descobriu como utilizar o princípio dos semelhantes ao traduzir um livro de W. Cullen em que este relatava os efeitos da intoxicação pela casca da quina (Cinchona off.). Esta é rica em quinino, o qual ainda hoje é usado para tratar a malária. Cullen descrevia sintomas tóxicos exatamente iguais ao quadro típico da malária, mas dava explicações pouco lógicas para os bons efeitos da quina.

Hahnemann, que tinha vasta cultura geral e médica, imediatamente desconfiou que podia estar ali a confirmação da teoria de Hipócrates sobre a cura pelos semelhantes. E começou a tomar ele mesmo a droga, depois experimentou em seus familiares, produzindo o mesmo quadro geral invariavelmente. Testou com outras substâncias, entre elas o arsênico, e disso concluiu que havia um princípio: similia similibus curentur. Mas essas experimentações eram feitas com doses tóxicas e causavam quadros deveras incômodos e perigosos, para dizer o mínimo.

Começou a diluir as substâncias e, talvez inspirado na alquimia, dinamizá-las. Essa nova preparação dos medicamentos mantinha as propriedades patogenéticas e curativas ao mesmo tempo que diminuía os efeitos tóxicos mais grosseiros e fazia surgir outros mais sutis e individualizantes. Por exemplo, a diarréia já não ocorria a qualquer hora do dia, mas em determinados horários ou com determinados acompanhantes. E esses novos elementos individualizantes eram vistos apenas causados por certas substâncias e não por outras. Se a muitas intoxicações causam diarréia, isso quase de nada serve para indicar, num quadro de doença, qual o medicamento mais adequado. Mas se a substância quando dinamizada provoca diarréia com determinadas características de horário, circunstância, desencadeante, cor, odor etc. isto serve para indicá-la, pelo princípio dos semelhantes, preferentemente a outras.

Assim Hahnemann buscava sempre a menor dose capaz de causar sintomas e de curar. Com o tempo foram estabelecidas regras para diluição e número de sucussões, chegando às centesimais e, posteriormente, qüinquagésimas milesimais. A partir de certo ponto é ultrapassado o número de Avogadro (capacidade de dispersão das moléculas, entre 9 e 12 C) e não existe mais matéria detectável no preparado.

Quatro pilares foram estabelecidos para aplicação prática da Homeopatia:

 

  • Princípio dos Semelhantes;
     
  • Dose mínima;
     
  • Medicamento único;
     
  • Experimentação no indivíduo saudável.

    O princípio dos semelhantes e dose mínima já foram explicados.

    O uso do medicamento único decorre do primeiro princípio. Se os sintomas experimentais foram obtidos com determinada substância, ao encontrar-se um paciente com um quadro de doença só é preciso procurar a substância que produza o mesmo quadro. E não adianta juntar diversas substâncias que tenham produzido partes daquele quadro porque não há absolutamente nada a indicar que se elas fossem experimentadas ao mesmo tempo produziriam sintomas semelhantes àqueles do doente. Ao contrário, a experiência mostrou que ao serem experimentados medicamentos compostos, produziram sintomas diferentes dos das substâncias simples.

    A experimentação no saudável é necessária para obter-se apenas os sintomas produzidos pelo medicamento e não misturados a uma doença pré existente. As características individualizantes citadas anteriormente - horário, circunstância... - são chamadas modalidades, ou seja, modificadores; enquanto as características de cor, consistência, odor etc. são chamadas de qualificadores.

    As modalidades e qualificadores são dos elementos mais importantes para a escolha do medicamento porque quando combinados apontam em geral para pouquíssimos remédios ou mesmo para apenas um.

    Os sintomas homeopáticos podem ser de todos os tipos e níveis. Podem ser mentais, sensoriais, funcionais ou lesionais. Os últimos são os menos importantes porque há menos possibilidades de individualização nas lesões e também porque as experimentações não foram levadas ao ponto de causar lesões, quando estas surgiram foram apenas por acidente.

    As experimentações são organizadas em livros chamados de matérias médicas e repertórios. Matérias médicas contêm os sintomas de cada medicamento como um conjunto. Repertórios contêm abreviações dos sintomas e uma lista dos medicamentos que os produziram ou curaram.

    Matéria médica é nossa farmacologia e repertório nosso "antibiograma".

    Na consulta homeopática são investigados todos os aspectos da vida e doença do paciente, em busca daqueles elementos que sejam mais individualizadores. Quase de nada servem os sintomas comuns das doenças, senão para o diagnóstico da patologia. O mais importante é o diagnóstico do medicamento mais indicado, o simillimum. Posteriormente vem a escolha da dinamização e dose, estas são assunto de experiência e sensibilidade de cada paciente.

    Creio que, além do princípio dos semelhantes, a maior diferença da Homeopatia é seu conceito de enfermidade e cura. Enfermidade é o conjunto dos sinais e sintomas que indicam o desvio do estado de saúde normal, que permite o desenvolvimento do pleno potencial do indivíduo, incluindo os padrões de comportamento e todos os demais aspectos físicos, psíquicos e espirituais. Então, se egoismo é algo normal, dada nossa pouca evolução moral, o exagero em relação à espécie, cultura e meio é sintoma. Se gostar de capim é normal aos cavalos, entretanto é sintoma num macaco. E esses são sintomas muito mais importantes do que diarréia ou abscesso porque mais individualizadores. Diferenciam aquele indivíduo dos outros da mesma espécie submetidos às mesmas condições e patologias.

    A doença não é a entidade clínica, mas todos os sinais e sintomas que indiquem algum grau de anormalidade, e a entidade clínica é apenas parte do conjunto. Por consequência, o conceito de cura também é diferente. Cura é o restabelecimento da normalidade do indivíduo que devolva-lhe os instrumentos são e livres para atingir seus mais altos fins existenciais.

    Um cavalo deve cavalgar, um gato deve gatear e um cachorro deve cachorrear. Seja lá o que for isso.

    A crítica mais banal que se faz à Homeopatia é de que não é sabido como ela funciona. Ora, alguém deixa de levar choque por não conhecer os princípios da eletricidade? Alguém não é anestesiado pela inalação de éter apenas por não saber sobre evaporação? Todos os que estudaram química há mais de 25 anos aprenderam que o átomo era composto de prótons, neutrons e elétrons. Hoje é sabido que há muito mais elementos envolvidos, até o próprio conceito de átomo já é questionado, e nem por isso qualquer propriedade química foi modificada.

    "... o exato mecanismo de ação do captopril ainda não foi completamente elucidado." (Bula do medicamento) E os compêndios e bulários estão cheios de notas como essa quando se referem ao mecanismo de ação das drogas.

    Outras críticas são que ela age lentamente ou só funciona em casos sem gravidade. Não vou discutir a pecha de efeito placebo porque esta é inútil frente a veterinários.

    A ação do medicamento homeopático é imediata. Mas o processo de cura dependerá de quanta lesão esteja envolvida, o que é decorrente do conceito de enfermidade. Embora os sintomas que ameacem a vida ou causem grandes sofrimentos sejam imediatamente eliminados porque se não o fossem o processo de cura não poderia prosseguir. Nos organismos vivos há mais elementos envolvidos do que o simples agrupamento de células.

    O que diferencia um corpo morto daquele na fração de segundo imediatamente anterior à morte? Certamente não é a composição química. Alguma coisa nele se esvaíu, a isso chamamos energia vital. Essa energia que mantém a vida atua com certas propriedades e uma delas é a de preservar as funções e órgãos mais importantes em detrimento dos menos nobres. Por isso os sintomas e sinais que, a continuar, extingüem a vida são imediatamente melhorados sempre que o grau de lesão o permitir. Quando isso não é possível sobrevém o que se costuma chamar de morte.

    O funcionamento apenas em casos de menor gravidade não se sustenta frente aos casos clínicos descritos na literatura. Todos esses argumentos contrários à prática homeopática são falácias, ou seja, falsidades que parecem verídicas, verossímeis, mas não passam de sofismas.

    HOMEOPATIA POPULACIONAL

    Esta é uma área ainda pouco explorada. O uso dessa medicina para melhorar os aspectos físicos e comportamentais dos rebanhos, prevenindo doenças e outros problemas.

    Particularmente no MS, RS e SP seu uso está crescendo junto aos criadores de bovinos de corte e leite. Os que adotam essa prática já não gastam com carrapaticidas; diminuíram a quase zero os índices de mastite, tristeza parasitária e outras parasitoses internas e externas.

    Em PE atendemos bovinos de corte e leite que após alguns meses não precisaram mais de parasiticidas. Também resolvemos casos de linfadenite em rebanho de ovelhas Santa Inês. O gado cresce saudável e mais tranquilo, desde que sejam supridas suas necessidades de alimentação, espaço e exercícios. Os medicamentos são usados para otimizar a absorção dos nutrientes e diminuir a susceptibilidade às doenças.

    Então, se a propriedade possui bons pastos mas alguns minerais não se encontram no solo em quantidades ideais a Homeopatia pode melhorar a absorção desses elementos por parte dos animais. Desde que não haja carência próxima da absoluta.

    Sem comida boa e espaço para exercício não há remédio que dê jeito.

    AOS CAVALOS

    Particularmente nesses animais a Homeopatia age incrivelmente rápido e de forma facilitada para o veterinário. - Porquê? Se pergunta o leitor.

    Porque o homeopata precisa conhecer detalhes do comportamento e modo de ser do paciente, além dos detalhes da própria patologia.

    Enquanto os cães são animais inteligentíssimos e capazes de demonstrar com clareza seu modo de ser, o relato feito pelos proprietários vem mesclado às próprias idéias e sintomas do humano que convive com ele. As pessoas fazem muita transferência de seu psiquismo para os cães.

    Então seria mais fácil que não houvesse essa transferência, mas que o animal fosse suficientemente inteligente para interagir e expressar seus sentimentos, gostos, desgostos, vontades etc.. No cavalo temos esse indivíduo: inteligente e expressivo mas independente das transferências.

    Entre as doenças que mais afetam os cavalos estão as do aparelho locomotor. Do ponto de vista utilitário e evolutivo esses animais têm sua vida centrada nos membros e neles surgem mais frequentemente os problemas. São entorses, tendinites, fraturas por esforço, linfangite etc.. Todas doenças crônicas que tendem a voltar e piorar quanto mais os membros sejam solicitados.

    O homeopata trata esses problemas de forma rápida e definitiva através de medicamentos e outras medidas higienodietéticas.

    Um Pouco de Fisiologia e Comportamento

    Os equinos não têm armas naturais para combate corpo a corpo. Se os bovinos têm os chifres, os carnívoros têm as presas e garras... e podem brigar muito bem, os equídeos só sobreviveram como espécie graças à sua capacidade de fugir. Isto se reflete em sua incrivelmente aguçada audição, capacidade de dormir em pé, além da velocidade e resistência para se locomover.

    Sempre viveram em manadas, com muitas fêmeas e poucos machos. E a hierarquia era respeitada, ou contestada na raça. Os machos corriam atrás das fêmeas e não montavam em outros do mesmo sexo.

    No que se refere à alimentação, eles são herbívoros naturais. Portanto todo seu organismo evoluiu para digerir vegetais ricos em fibras, além das proteínas, vitaminas etc..

    Do exposto acima é fácil concluir que o cavalo tem sua natureza gritando por espaço, companhia e vegetais fibrosos.

    A VIOLÊNCIA

    Quando se prende um animal desses numa baia, e sua alimentação fica baseada em concentrados pobres em fibras, o organismo simplesmente não dá conta.

    O corpo do cavalo não foi feito para isso. Ele foi feito para, ainda que debaixo de chuva e frio, buscar seu alimento em grandes pradarias, andando o dia todo, correndo ao menor sinal de perigo, deitando-se nos descampados onde possa sentir a vibração do solo e a viração do vento com seus odores e sons... e fugir se houver ameaça.

    Numa baia, servido de concentrados, só andando quando o humano acha que está na hora dele fazer exercício, seus instintos e sua fisiologia estão sendo violentados o tempo todo. Olhe para aquelas orelhas que se movimentam como antenas, para aquelas narinas que parecem querer aspirar o mundo. Veja aqueles cascos que batem no chão e fazem o bicho levantar-se como um raio ao menor sinal de perigo. Tenha olhos de ver!

    Seu corpo grita por exercício e ele, sem saber o que fazer, começa a desenvolver tiques e manias. Seus ossos, não sendo exigidos com tanta frequência, não precisam mais de tanto cálcio. Não precisam ser tão fortes. Seus músculos perdem parte da elasticidade, força e resistência. Qualquer atleta humano acha que isso é óbvio e talvez que nem precisasse ser dito.

    Mas subitamente o cavalo é tirado do cubículo, selado e posto a dar grandes saltos, corridas por caminhos que não foram escolhidos por ele (talvez se pudesse escolher ele desse uma súbita guinada e fosse por aquela outra passagem onde há menos buracos ou galhos se chocando contra sua canela) e freiadas com um peso de 100 Kg em suas costas. Muitas vezes essa carga é de mais do que 20% de seu próprio peso. Os ossos, músculos e tendões sofrem, e surgem as lesões.

    Seu intestino, coitado, é do tipo longo, feito para digerir alimentos fibrosos que entram aos poucos o dia inteiro. O que fazer com aqueles cereais tão ricos mas tão pouco volumosos dados de uma só vez? Entra em paranóia, se contrai desordenadamente. Cólica!

    PREVENÇÃO

    Então, a primeira providência para quem pretende ter cavalos sadios é deixar que ele viva da forma pela qual evoluiu e sobreviveu por milhares de anos.

    Se quiser melhorar, dê-lhes concentrados em pequenas quantidades. O suficiente para suprir as deficiências de sua pastagem que talvez seja muito bonita mas sem aqueles matinhos chamados leguminosas.

    E, se quiser ter um animal forte, contente e em boa saúde, não vá contra sua natureza. Ou então continue gastando com remédios caros e pouco eficientes e aposentando animais ainda jovens, inteligentes, de grande capacidade de trabalho e valiosíssimos.

    A Natureza é implacável. Melhorá-la, aprender a usá-la a nosso favor, sim! Violentá-la, não!

    Dr Elyas Zoby - Homeopata Veterinário. Professor na pós graduação da Escola Paulista de Homeopatia (EPH), ex-coordenador de ambulatório e de curso. Sócio fundador da Associação Médico Veterinária Homeopática Brasileira (AMVHB). Ex-membro do Conselho Deliberativo da Escola Paulista de Homeopatia (EPH). Tel.: (82) 338-4439 e 338-1535
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